quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

Ser santo no cotidiano

Este texto, que apresentamos a você hoje, foi escrito pela Ir. Zuleica Silvano. Ela é biblista e exerce a missão Paulina no SAB (Serviço de Animação Bíblica), em Belo Horizonte-MG. Numa perspetiva bíblica nos fala um pouco do que significa SER SANTO. 


A santidade é uma vocação. Vocação essa que se expressa no chamado divino: “Sede santos, porque o vosso Deus é santo” (1Pd 1,16 e Lv 19). Mas, em que consiste esse ser santo? Para alguns significa algo ultrapassado que nem cabe refletir; para outros, talvez, seja algo tão distante que não é possível atingir e, por isso, desistem. Outros acreditam que ser santo está intimamente ligado a um desenfreado esforço humano, caracterizado por jejuns exagerados, horas prolongadas de oração e, especialmente de um afastamento quase total de tudo o que esteja ligado às “coisas do mundo”. Se prestarmos a atenção, no texto da Carta de Pedro, perceberemos que ser santo não é nada extraordinário; é simplesmente viver profundamente o nosso batismo. Isso é um dom, uma graça recebida de Deus, mas conta também com a nossa colaboração: a nossa constante conversão e o nosso desejo renovado de responder ao projeto que Deus tem para nós e para nossos irmãos e irmãs.

 

Mas, em que consiste viver profundamente o nosso Batismo?

O Batismo é um novo nascimento e que nos dá o direito à herança, à participação na vida de Jesus Ressuscitado, e a comunicação plena na comunidade de fé. Mas, o que significa receber por herança a participação na vida de Jesus Ressuscitado? Essa herança traz inúmeras consequências para a vida do batizado. 
A primeira consequência está em perceber que Deus Pai se manifesta nas palavras e gestos de Jesus Cristo. Com isso, o nosso Deus não é alguém distante, ausente. Antes, ao contemplar a existência humana e frágil de Jesus, estamos contemplando o grande mistério do Deus que se faz próximo. Desse modo, acreditar em Deus, Pai de Jesus Cristo, é dar continuidade à prática de Jesus, que é permeada de solidariedade.
A segunda consequência é que somente participamos da glória de Deus (ser santo) quando fazemos o mesmo caminho que fez Jesus, o caminho da cruz. Essa foi também à experiência dos primeiros cristãos sendo experimentada ainda hoje na América Latina por homens e mulheres que lutam pela realização do projeto do Ressuscitado. Desse modo, somos chamados a seguir Jesus por meio do nosso testemunho de vida.


Essas consequências nos convidam a dar alguns passos.



O primeiro passo é deixar-se iluminar pela Palavra de Deus numa atitude de escuta daquele que nos chamou à vida e quer sustentar-nos no amor e pelo amor, e pede de nós uma resposta de fidelidade. Fidelidade à Palavra de Deus que a pronunciou no “princípio”, que a repete nas promessas e na Aliança, que a realiza na redenção trazida por Jesus – a Palavra Encarnada – e a perpetua nos gemidos vitalizantes do Espírito que ecoa na intimidade de cada pessoa e da comunidade. Com isso, a Palavra de Deus é a fonte que dá sentido à vida da comunidade, à vida litúrgica-celebrativa e sacramental, a nossa vida de santidade.

O segundo passo é fazer com que a Palavra de Deus ilumine as nossas ações humanas no campo social, comunitário e eclesial. Ações essas que não são vistas meramente como humanitárias, mas como a expressão do encontro experiencial com Deus. Assim, somos chamados/as a nos colocar diante do outro numa atitude despojada e a nos deixar interpelar pela prática da justiça (Lv 19), que é expressão da nossa fidelidade ao projeto de Jesus, que pela sua Ressurreição nos faz também filhos/as e herdeiros/as de Deus. Diante dessas atitudes é necessário pautar a vida pela palavra, num processo de seguimento, de identificação com Jesus Cristo.


O significado da santidade é manifesto, também, na coragem de resistir e na capacidade de transformar os fatos do cotidiano em experiências de libertação, em projeto e prática em defesa da vida, lutando contra todos os mecanismos de morte. Esta santidade só pode concretizar-se e em quem foi tocado por dentro pela presença de Deus e vivenciou o diálogo íntimo com Ele por meio da Palavra.


O nosso ser batizado nos torna capazes de mudar a história e os critérios de discernimento da realidade, de confronto da nossa vida com a vontade de Deus e nos fortalece a viver em comunhão, celebrar a vida e o mistério Pascal na ação litúrgica e nos inserir no mundo como testemunhas da justiça e da caridade.


Portanto, ser santo é igual viver no concreto nosso ser batizado, ou seja, é viver a liberdade dos filhos/as de Deus – e, não sermos escravos/as de nossos interesses mesquinhos, na luta pelo poder, na discriminação das outras pessoas, no individualismo, na falta de perdão, nos deixando guiar pelo nosso egoísmo. Antes, ser batizado, ou melhor, ser santo é entregar-se totalmente à vivência do amor mútuo, no total acolhimento do outro, na misericórdia, na solidariedade. Isso reproduz em nós as atitudes de Deus, que é Amor, Justiça, Vida, Solidariedade, e corresponde ao desejo mais profundo de todo ser humano, de refletir em sua vida a imagem do seu Criador e Senhor (cf. Gn 1,26)

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