terça-feira, 5 de novembro de 2019

Santa Teimosia!


A santidade é a vocação fundamental que Deus colocou no coração de todo ser humano: “Sejam santos, porque eu sou santo” (Lv 11,45). E, com certeza, já lemos e escutamos várias definições do que é santidade. A maioria dessas definições transita entre conceitos herdados da mística cristã, da Tradição apostólica e da Sagrada Escritura. E não poderia ser diferente, pois são fundamentos essenciais para a fé cristã. No entanto, quero compartilhar a definição que um místico da era moderna, Tiago Alberione, deu sobre este tema.

Na passagem do século XIX para o século XX, Alberione percebeu que o mundo passava por fortes mudanças sociais, tecnológicas, religiosas, políticas e econômicas e que um número cada vez maior de pessoas abandonava a fé. Diante dessa realidade, ele se questionava sobre o que fazer pela humanidade do novo século. Essa inquietação levou-o a tomar contato com o impulso de vida presente no mais profundo de si, que podemos chamar de santidade.

A santidade, portanto, não é algo que nos arranca do mundo e de suas realidades. Ao contrário, ela nos mergulha no cotidiano da vida para viver o presente com intensidade, agindo eficazmente para construir o futuro. Para Alberione, os santos da era moderna seriam aqueles e aquelas que usassem os meios mais eficazes que o progresso humano oferecia para o maior bem da sociedade.

Apesar de seu conceito de santidade ser extremamente atual, Alberione estava bem consciente de que não nos autosantificamos, por isso, ele concorda com a afirmação tradicional de santidade como obra de Deus e ação do Espírito Santo. No entanto, não resume a santidade apenas a um estado espiritual, mas a define como um processo que envolve o ser de forma integral e exige da pessoa uma docilidade ativa.

A santidade é, para este místico da era moderna, um processo gradual que traz consigo a responsabilidade do testemunho a ser vivido no decorrer da existência, pois, “quando existem santos, estes comentam com a vida os versículos do Evangelho”. Pode-se afirmar que Alberione aprendeu de Paulo Apóstolo a santidade que propõe, justamente porque se trata de um processo de cristificação que tem como meta final o “Já não sou eu que vivo, mas Cristo que vive em mim...” (Gl 2,20).

Alberione teve, então, um insight: “A santidade começa pela mente”. Ou seja, o caminho de santidade se inicia quando a mente se deixa iluminar pela Verdade, provocando na pessoa uma mudança de mentalidade que antecede a modificação do comportamento humano. Trata-se de uma experiência de conversão total que muda a vida da pessoa a partir de dentro. Em outras palavras: só quando nossa mentalidade se converte de toda forma de preconceito e manipulação é que é possível converter as nossas ações. Do contrário, as mudanças serão apenas superficiais e passageiras.

É muito original essa definição de que “a santidade é a teimosia no fazer a vontade de Deus”. Significa que não basta purificar a mente, é preciso santificar a inteligência, que é um desafio mais do que atual, visto que, segundo nosso místico, “quem domina no homem é a ideia da qual já está embebida a alma, o coração, o intelecto, a vontade”. Daí o quanto é significativa a formação da consciência e das convicções da pessoa para que, com liberdade, ela seja capaz de assumir a Lei de Deus não por imposição, mas por convicção.

A mente santificada dará frutos de humildade, paciência, mansidão, tolerância, respeito, humanidade. Nesse sentido, santos e santas são os que sabem que a vida é dom de Deus e, por isso, buscam viver intensamente e ajudam outros a viver. Tornam-se portadores de vida, irradiando esperança, alegria, paz e amor por onde passam. Quanto mais santa a pessoa, mais humana e humanizante ela será. Em outras palavras, a santidade significa viver o divino que há em nós.

E só há um lugar possível para se viver a santidade: o cotidiano da vida! É no martírio cotidiano da nossa vontade, da nossa mente, do nosso coração, que se dá nas relações com Deus, com o próximo e com a Criação, que cada um(a) de nós realiza, com a graça de Deus, o processo de santificação. Santos e santas, portanto, são aqueles e aquelas que, inspirados na santidade de Jesus, tornam-se presenças inspiradoras no mundo ao assumirem publicamente que “vivem um caso de amor com a vida”. Santos e santas são os que teimam na esperança, que insistem, a tempo e a contratempo, em acreditar na vida porque sabem que ela é santa! Santo é defender a vida! Santidade é a alegria de viver.


Irmã Cristiane Rodrigues de Melo, fsp

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