quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

As resistências à Vocação

       

Vamos ver três casos de resistência à vocação: Abraão e Sara resistem porque não conseguem crer na vocação e, por isso, apresentam caminhos alternativos. Moisés resiste porque tem medo da vocação e não quer comprometer-se.  Elias resiste porque confunde o Deus que chama com a imagem que ele mesmo se fazia de Deus e, por isso, sem se dar conta, busca a resposta numa direção errada. São três casos de vocação de pessoas que viveram antes de nós. São, ao mesmo tempo, arquétipos, modelos, símbolos do que acontece ou pode acontecer com todos nós. São espelhos, nos quais reconhecemos algo de nós mesmos. Eles nos ajudam a entender melhor o que se passa dentro de nós.
O Chamado de Abraão e Sara
Situando o chamado
Século VI antes de Cristo. O povo estava no cativeiro da Babilônia. Abraão e Sara tinham saído para a Palestina em busca da Terra Prometida. O povo estava na escuridão (Lam 3,2-6), sentia-se injustiçado por Deus (Is 40,27; 49,14), tinha perdido a auto-estima, achava que sua vida já não tinha valor nenhum e que todo o seu esforço não adiantava para nada (Is 49,4). Vivia oprimido e disperso, sem encontrar os sinais da presença de Deus na vida (Sl 77,8-11). Muitos tinham se acomodado e diziam: “Deus se esqueceu de nós” (Is 40,27). Abandonaram Javé e começaram a crer nos deuses do império da Babilônia que lhes pareciam mais fortes!.
E no entanto, foi a esse povo desanimado e sem futuro que Deus estava chamando para ser Luz das nações (Is 42,6; 49,6). Sua vocação era anunciar a justiça (Is 42,6), libertar os oprimidos (Is 61,1), unir as tribos de Jacó (Is 49,5-6), levar a mensagem de Deus até os confins da terra (Is 49,6). Difícil crer num chamado assim!  –“Quem somos nós para realizar uma vocação assim!” De fato, a maioria nem lhe dava atenção. Dava risada.
Mas um grupo pequeno, discípulos e discípulas de Isaías, começou a lembrar e aprofundar a história de Abraão e Sara. Em vez de desanimar, diziam o contrário: “É agora que nós temos que ser Abraão e Sara! Esta é a nossa vocação!” E repetiam ao povo:

“Vocês que buscam a justiça e procuram a Deus. Olhem para a rocha de onde foram talhados, olhem para a pedreira de ontem foram extraídos. Olhem para Abraão, seu pai, e para Sara, que os deu à luz! Quando os chamei, eles eram um só, mas se multiplicaram por causa da minha bênção!” (Is 51,1-2)
 Lembrando a história antiga de Abraão e Sara, em cuja terra estavam exilados, em vez de desanimar, os discípulos de Isaías se enchiam de esperança: “Nossos pais Abraão e Sara conseguiram! Nós também vamos conseguir!” Hoje acontece o mesmo. Muitos se acomodam, mas outros dizem o contrário: “É agora que nós temos que ser Zumbi! Tiradentes! Santos Dias! Oscar Romero! Padre Josimo! Irmã Doroty! Esta é a nossa vocação!”
Para ajudar o povo do cativeiro a descobrir e assumir esta sua vocação, os discípulos de Isaías começaram a contar novamente a história de Abraão e Sara, mas a contavam de tal maneira que o povo pudesse descobrir nela sua própria vocação e a maneira de como realizá-la. As narrações sobre Abraão e Sara, conservadas no livro de Gênesis, refletem não só a história do casal no longínquo passado de 1800 antes de Cristo, mas também, como num espelho, a situação difícil e sem horizonte do povo no cativeiro da Babilônia. A maneira dramática como é narrada a história de Abraão e Sara deixa transparecer como era difícil para o povo do cativeiro crer na vocação que lhe vinha de Deus e sugere, ao mesmo tempo, como ele devia fazer para crer na vocação e assumi-la. Estas narrações também são espelho para nós hoje refletirmos sobre a nossa vocação, sobre o nosso chamado.
O chamado
Eis como começa o chamado para sermos Abraão e Sara, para refazermos a história:


Javé disse a Abrão: "Saia de sua terra, do meio de seus parentes e da casa de seu pai, e vá para a terra que eu lhe mostrarei. Eu farei de você um grande povo, e o abençoarei; tornarei famoso o seu nome, de modo que se torne uma bênção. Abençoarei os que abençoarem você e amaldiçoarei aqueles que o amaldiçoarem. Em você, todas as famílias da terra serão abençoadas". Abrão partiu conforme lhe dissera Javé. E Ló partiu com ele. Abrão tinha setenta e cinco anos quando saiu de Harã. Abrão levou consigo sua mulher Sarai, seu sobrinho Ló, todos os bens que possuíam e os escravos que haviam adquirido em Harã. Partiram para a terra de Canaã e aí chegaram.  (Gn 12,1-5)
 A promessa de ser pai de um povo e fonte de bênção para toda a humanidade é uma vocação bonita que atrai. Vocação importante de grande alcance. Mas a condição para poder ser pai de um povo é ter ao menos um filho. Abraão já tinha 75 anos e sua esposa Sara era estéril e avançada em idade. A condição para Abraão crer na sua vocação era crer em Sara, crer que Sara pudesse ter um filho. Difícil crer numa promessa assim! Era mais fácil crer no projeto que os dois iam elaborando como possível alternativa para uma promessa aparentemente impossível.

As propostas alternativas
 Foram três as propostas alternativas que os dois elaboraram. Mas também foram três as pancadas que levaram, três os impasses que enfrentaram, três os fracassos que sofreram, até renascer e descobrir o caminho. Tem gente que leva dez pancadas, outros caem vinte vezes até aprender. Outros não levam pancada nenhuma nem caem, porque já estão deitados no chão, são humildes. Vejamos as propostas alternativas de Abraão e Sara:
A primeira proposta alternativa à promessa de Deus: Eliezer
Humanamente falando, a vocação de Deus ultrapassava as possibilidades reais do casal. Abraão já era velho e Sara não podia ter nenê. A primeira proposta de Abraão para tentar uma saída foi a de apresentar Eliezer, seu empregado, como substituto de um (im)possível filho (Gn 15,1-6). Conforme as leis da época, Abraão poderia adotá-lo como filho. O filho de Eliezer seria neto de Abraão, e a promessa de ser pai de um povo estaria garantida, a vocação estaria realizada. No fundo, Abraão não acreditava na promessa. Mas Deus disse: “Eliezer, não! Vai ter que ser filho seu!” (cf. Gn 15,4). É a primeira rasteira. Tudo voltou à estaca zero!
A segunda proposta alternativa à promessa de Deus: Ismael
 Para poder crer na sua vocação, Abraão devia crer em Sara, e Sara devia crer em Abraão. Não basta crer em Deus abstratamente. A vocação está ligada a pessoas concretas. A segunda proposta foi a de apresentar Agar, escrava de Sara, para ser mãe do futuro filho (Gn 16,1-16). Novamente, os dois não deram conta de crer em si mesmos nem na vocação. Achavam que a promessa só poderia realizar-se através de Agar, isto é, através do projeto que eles tinham imaginado. Nasceu Ismael, filho de Abraão e Agar. O nome Ismael significa “Deus ouviu!” Através de Ismael, filho de Abraão, o povo estava garantido. Novamente, vem a resposta de Deus: “Ismael, não! Terá que ser filho de Sara!” (Gn 17,15-19). É a segunda rasteira. E novamente, tudo voltou à estaca zero!
 
A terceira proposta alternativa à promessa de Deus: Isaac
 Abraão recebeu a visita de três peregrinos e os recebeu com muita hospitalidade (Gn 18,1-8). Os três diziam que Sara ia ter nenê no ano seguinte. Sara riu (Gn 18,9-15). Abraão também riu (Gn 17,17). Todos rimos, porque não acreditamos em nós mesmos, nem na vocação. Só acreditamos no que nós fazemos para Deus, e não no que Deus é capaz de fazer por nós. Mas finalmente, Abraão consegue crer em Sara, e nasce o filho que recebe o nome de Isaque, o que significa Risada (Gn 21,1-7). De Deus não se ri. Falou, está falado! Podes crer! O nascimento de Isaque clareou o horizonte. Finalmente, o povo estava garantido, a vocação estava realizada. A bênção prometida ia poder irradiar para todas as nações da terra. Mas aqui acontece uma coisa muito sutil. Agora que Isaque nasceu, a esperança de Abraão tem um fundamento concreto e palpável: o filho. E imperceptivelmente o fundamento da esperança passa de Deus que oferece o dom, para o dom oferecido por Deus. E aí a palavra de Deus chega até Abraão: “Vai sacrificar o teu filho Isaque no lugar que eu te mostrar!” (Gn 22,1-2). É a terceira rasteira. Estaca zero de novo. Tudo voltou para antes do começo.

A resposta final à promessa de Deus: a entrega total
 Desta vez, Abraão não discute, não diz nada. Ele é obediência muda. Apenas age (Gn 22,3-10). Não se fica sabendo o que ele pensa. O texto não informa. Cada um de nós, lendo o texto e confrontando sua atitude com a de Abraão, deve preencher a informação que falta no texto. No último momento, Deus manda Abraão parar. Não pode sacrificar o filho (Gn 22,11-19). Basta a obediência, interpretada pela carta aos hebreus da seguinte maneira: “Abraão acreditava que Deus é capaz de tirar vida da própria morte”, e acrescenta: “Isso é um símbolo para nós” (Hb 11,17-19). “Abraão acreditou em Deus e isto lhe foi imputado como Justiça, e ele foi chamado amigo de Deus” (Tg 2,23; Rom 4,3; Gn 15,6).
 
 “Isso é um símbolo para nós” (Hb 11,19). De que maneira? Poderíamos continuar o comentário da carta aos hebreus dizendo: Todos nós, casados ou solteiros, todos e todas temos um Isaque, do qual não abrimos mão, que consideramos o fundamento da nossa vida, e sem o qual não poderíamos imaginar nossa vida. Chegará o dia em que Deus (a vida) pedirá a mesma coisa: Sacrifique esse seu Isaque, para que a esperança seja colocada em Deus, só nele!            
 Responder à vocação, comprometer-se de fato, é um processo, que ocupa a vida inteira. É fruto de lenta e dolorosa purificação. É como descascar uma cebola. Você tira uma casca, e terá outra casca para tirar. Você grita: “Pare! É o miolo!” E não é o miolo, é casca. Cebola não tem miolo. Só tem casca. E enquanto descasca a cebola você chora. Até descobrir que não temos miolo. Só temos casca, pois não fomos feitos para nós mesmos, mas para Deus e para os outros.
FONTE: Livro: Vai,eu estou contigo

 

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