quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Reflexão para tempos de férias

 
Férias: tempo do bom ócio, do lazer e do prazer

(José Lisboa Moreira de Oliveira
Filósofo, teólogo, escritor e professor universitário).


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No Brasil o final e o início de cada ano costumam coincidir com o período de férias para boa parte da população, especialmente aquela ligada à educação. É o tempo de parar para descansar, curtir a vida, viver um pouco de ócio e cultivar alguns bons prazeres, como, por exemplo, ir à praia ou a outro local diferente.


Lamentavelmente certa tradição cristã pintou tudo isso com a mancha do pecado. Ao invés de motivar as pessoas a encontrarem no descanso, no ócio e no prazer uma forma de contemplar o amor de Deus, terminou por estragar tudo, empurrando os seres humanos exatamente para onde não desejava. Por esse motivo convém resgatar uma visão mais positiva destas coisas, mostrando o quanto elas tem de divino e de profundamente humano.

Precisamos, logo de início, abandonar a figura de Deus como sendo a de alguém bastante irado, nervoso, vingativo e castigador. Um Deus estressado que não tem prazer, que não descansa e nem tira férias, cujo único prazer é castigar e punir o pecador. Na tradição cristã quase não existe referências ao ócio e aos prazeres divinos. Já na maioria das culturas não-cristãs os deuses são revestidos de certo antropomorfismo. Por isso, normalmente, são também “deuses terrestres” que amam determinados prazeres como, por exemplo, caçar, pescar, criar animais etc. Os gregos tinham o deus Dionísio, adotado depois pelos romanos com o nome de Baco, que era a divindade do vinho, da ebriedade e dos excessos
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Porém, se olharmos atentamente para alguns textos da Sagrada Escritura vamos perceber que o Deus bíblico é um Deus que tem e cultiva prazer, que ama tirar uma folguinha de vez em quando. Já nas primeiras páginas da Bíblia encontramos um Deus que “curte” prazerosamente a sua criação. Ele vai criando e contemplando o que cria. Esta contemplação é uma ação prazerosa como revela muito bem a expressão “Deus viu que isto era bom” (Gn 1,12), termo que poderia ser traduzido pela expressão “Deus sentiu muito prazer pelo que tinha acabado de fazer”. Depois de continuar a criar, ele volta a contemplar sua criação e sente muito mais prazer ao perceber que tudo o que ele tinha acabado de criar “era muito bom” (Gn 1,31). Deus sente em profundidade infinita aquele prazer que nós sentimos, quando terminamos de realizar algo com o qual sonhamos, e que contribui para a nossa realização e felicidade.

Estudiosos da Bíblia observam com perspicácia que a criação divina não está voltada exclusivamente para uma função meramente econômica, ou seja, somente para atender as necessidades básicas da sobrevivência humana e dos demais seres vivos. Deus, ao criar o mundo, faz muitas coisas que, por si só não seriam indispensáveis. Percebe-se, então, que ele cria não só por necessidade, mas para sentir prazer e para oferecer ao ser humano oportunidades de sentir prazer.

Este Deus bíblico sente prazer também em terminar a sua obra, em deixar de trabalhar, cultivando o ócio, cessando toda a obra que tinha feito até então (Gn 2,2-3). É o prazer de concluir um trabalho e depois descansar, apenas contemplando o que foi feito. Trata-se aqui do prazer do ócio, daquela experiência agradável de ficar um tempo sem fazer nada. Talvez isso seja difícil de entender numa cultura como a nossa que valoriza o ativismo e a produção e que tem dificuldade de encontrar tempo para o prazer de descansar, para o prazer de parar para ficar sem fazer nada. Na era do consumismo e da busca obsessiva de ter dinheiro para gastar, o ser humano vai perdendo o prazer do ócio. Trabalha como louco para poder ter um dia um tempo livre para gastar o dinheiro. Mas a obsessão é tanta que ele nunca consegue parar para descansar. No cristianismo chegou-se à obsessão de pensar que o descanso e o ócio eram pecados.

Além disso, o Deus bíblico é um Deus lúdico, ou seja, que gosta do prazer de se divertir e aproveita de momentos de folguedo para passear e praticar o lazer. Neste sentido é muito significativa a cena do livro do Gênesis (3,8) segundo a qual Deus, aproveitando a brisa da tarde, passeia pelo jardim do Éden, por ele criado. A Tradução Ecumênica da Bíblia (TEB) nota que o termo usado para designar esta brisa é ruah, palavra feminina que significa o sopro divino criador. Continuando a reflexão a TEB deixa entender que Deus pretendia encontrar o ser humano criado por ele num ambiente prazeroso e não num clima de tensão. O Deus da Bíblia adoraria estar naquele instante com Adão e Eva curtindo gostosamente as maravilhas da criação e saboreando a alegria de uma boa diversão, de uma boa festa.

Jesus se apresentou ao povo de sua terra como sacramento deste Pai prazeroso que gosta também de descansar e curtir a vida e os amigos. Embora os Evangelhos não relatem em nenhum momento as risadas de Jesus, é possível concluir, a partir de vários relatos, que ele não era um homem sisudo e fechado, mas alguém que vivia intensamente a alegria e o prazer. Quebrando regras convencionais, tradições seculares, Jesus é alguém que gosta da “boa vida”, do ócio e de curtir momentos prazerosos, regados a base de muita comida e de muita bebida, inclusive na companhia de gente de má fama

O primeiro sinal por ele realizado, segundo o Evangelho de João, foi a transformação de água em vinho, no final de uma festa de casamento, quando todo mundo já estava bêbado (Jo 2,1-12). Em que pese uma interpretação simbólica ou metafórica deste texto, na tentativa de negar a sua historicidade, não há como desconsiderar o seu significado para uma leitura positiva do prazer, do ócio e do lazer. Normalmente na Bíblia o vinho em abundância, além de expressar a alegria pelos dons concedidos por Deus, é símbolo de prazer, de lazer e de gozo. O simbolismo ou a metáfora do vinho indicam uma profunda revolução a ser realizada nos tempos messiânicos. Estes devem ser marcados pela festa da solidariedade, pela alegria, pelo prazer de viver, de encontrar os amigos, dos quais a abundância do vinho é a expressão mais forte (Is 55,1-2).

Os Evangelhos mostram ainda um Jesus que gosta de curtir os prazeres da vida. Embora ele não desvalorizasse a ascese, o jejum e o silêncio, sabia colocar essas coisas no seu devido lugar e no seu devido tempo (Mc 2,18-20). Ele não foi um asceta rigoroso, preocupado em manter-se distante de uma vida prazerosa e gostosa. Pelo contrário, como já dissemos antes, amava a “boa vida”, frequentando lugares e pessoas suspeitas. Esse seu tipo “boêmio” mereceu-lhe a fama de fanfarrão, comilão, beberrão, além de ser acusado de ser amigo de pessoas indecentes (Lc 7,33-34).
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Temos todas as razões para aproveitar bem os períodos de férias e para reivindicar para todas as pessoas, sem exceção, esse sublime direito. Porém, precisamos ter cuidado para não transformarmos nossas férias em momentos de sofrimento e de dor. Precisamos curtir sem exceder, amar sem explorar e sem manipular as pessoas. Precisamos silenciar para escutarmos o barulhinho do vento nas folhas das árvores e da água que escorre num rio ou cai numa cachoeira. Somos chamados a sairmos da rotina para descansar nossos sentidos e refazermos nossas energias. Mas isso só será possível se fizermos como o Deus de Jesus. Nosso ócio, nosso lazer e nossos prazeres serão estressantes se levarmos atrás de nós o frenesi da vida agitada que temos. Serão tristes e monótonos se não formos contemplativos e se carregarmos conosco os vícios da manipulação, da depredação e da busca do prazer que custa dor e sofrimento para outras pessoas. É bom pensar bem nisso.
 

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